sábado, 24 de janeiro de 2009

LUTO E ALÍVIO : EMOÇÕES

Esta é,certamente, uma história verídica, cujos fatos andaram quase todos ocultos. Compunham o mais sinuoso dos quebra-cabeças e sua lista de personagens nos remete à nossas próprias vidas.
O ano é 1979. Minha irmã espera a primeira filha e compartilhamos momentos de expectativa em toda família. Por outro lado, minha tia caçula também aguarda a chegada de uma menina após tres filhos homens. Ela vive com meus avós numa pequena casa no mesmo terreno onde mora seu irmão, a mulher e os filhos. São, portanto, duas vertentes, duas tias, ações e pensamentos distintos,mas entrelaçados por um destino inimaginável. É como o vento que remove as areias e mais tarde as trás de volta ou como a tempestade que arrasta os telhados, derruba muros e paredes que se pensava sólidos. Fica-se a lamentar os tijolos caídos,partidos,algo inexplicável e devastador. A arte,definitivamente, não imita a vida,pelo menos não no caso dos tijolos.
Dificuldades existem e são passíveis de gerar soluções cegas e de finais imprevisíveis. Se há os desatentos e inexperientes,há também os que acreditam em suas idéias e as promovem sem esperar oposição. A tia, que era cunhada, convenceu,embasada na realidade absoluta, a entregar a menina que viria para adoção e já tinha quem se propusesse a cuidar da pequena com esmero,carinho e tudo se propunha também a fazer para seu fututo promissor,zelando por sua vida e integridade. Minha tia, mãe de tres e aguardando a tão sonhada menina, concordou. Ambiguidades que não saberia explicar sem passar por um coração aflito, entrelaçado de dor pela escolha e suas consequências, além de ser necessário explicar as verdadeiras e improváveis razões. E assim, tão logo nasceu a bela menina,que chamarei aqui "Laura", a tia que era cunhada, levou-a para os pais adotivos,antes mesmo que experimentasse dos seios de sua mãe, o gosto quente e diferenciado do alimento vital.
Minha irmã, dias antes, dera à luz uma igualmente linda criança, uma menininha que ajudei a cuidar desde seu primeiro dia no mundo e pela qual nutro o mais belo dos sentimentos e imenso carinho. Minha tia que doara a filha, visitou-nos e segurou entre lágrimas a minha pequena sobrinha. Sentí-lhe a dor dilacerante, observei suas lágrimas e enxerguei seu coração amargurado. Ela, apezar de ter tido uma outra menina anos mais tarde,jamais esqueceu-se de "Laura" e permeava um inferno de saudade e angústia, mesmo a outra lhe garantindo estar a criança muito bem.
O ano agora é 2009.
Minhas tias envelheceram e assim como a minha mãe, alguns já haviam partido desta vida. Nunca cheguei a ver a minha prima que fora adotada,mas tinha na lembrança frgmentos desta história,sabia de alguns personagens e corroía-me a vontade de decifrar o enigma. Mas o tempo passou e eu não tivera chance de esclarecer. Estava de volta à cidade para uma visita à família e à minha tia,que era cunhada, pois ela estava gravemente doente e eu gostava muito dela para admitir a idéia de não fazer-lhe uma visita em vida. A mãe de Laura também está muito doente, disseram ser terminal e,juntando tudo, precisava vê-las . Alguns dias depois e a primeira veio a falecer. Silêncio em alguns, lágrimas, muitas delas. Corrí em sua casa, ví meu tio que é irmão de minha mãe, seus filhos,netos e numa conversa, descobrí que Laura também perdera os pais adotivos e manifestara desejo de conhecer a minha outra tia,sua mãe biológica. No entanto, ardia-me a curiosidade de eu mesma conhecê-la e algo em mim esfacelava a razão. Outra hora explico.
No velório da tia, uma outra,minha madrinha, veio apresentar-me uma jovem. Disse-lhe o nome e sentí as pernas dobrarem,o corpo queimar. Era a minha prima, a Laura. Justo no dia do enterro daquela que lhe tirara dos braços da mãe,alegando realismos de causa, estava alí, junto a todos os demais tios, primos,toda família. Minha outra tia, abatida e cansada, repousava sob uma cadeira. Perguntei à minha madrinha por que não as apresentávamos naquele instante e ela me respondeu estar aguardando a oportunidade. "Oportunidade, respondí, se cria". "Vai ser agora".
Enquanto eu levava a tia pra fora, sob um ar fresco e mais leve, minha madrinha levava igualmente a Laura até nós. E como mágica que nos faz explodir em emoção, todos choramos copiosamente ao mostrarmos uma para outra,mãe e filha, causando-lhes enorme esforço para não desfalecer. Jamais,em t oda minha vida experimentei tantas emoções diversas num só dia,num só local. Chorava a morte de uma tia, a lembrança de minha mãe, o reencontro de minha prima com a minha tia. Reví meus conceitos, minhas prioridades e deixei todos os meus problemas do lado de fora. Havia algo de especial e surrealista naquele instante,não seria egoísta. Todos nós estávamos numa profusão de lágrimas e sentimentos. Impossível narrar mais alguma coisa. De certa forma, todos, a família, devíamos algo para as duas,não sei bem por que razão. Ou ausência dela,não sei. Minha sobrinha era a que mais chorava, presumí o que lhe ocorria naquele instante. Ela tinha a mesma idade,fora embalada pela mãe da outra que jamais provara o sabor tênue e indissipável de seu carinho. Ela sabia o significado de tudo que acontecia. Quase trinta anos separara aquele instante e em sua mente, um dilúvio de comoção a afugentava do presente, do lógico.
E eu conseguí falar mesmo embargada e ineficaz nas palavras, que o tempo ajeitava tudo. Recolocava cada tijolinho em seu devido lugar. Nada ficaria sem resposta nem preso às algemas do passado. Felizes os que conseguiam compreender e perdoar. Notórios os que ainda assim, em meio a tristeza do desenlace carnal de alguém querido, tivesse forças para um afago, um doce carinho, uma terna palavra de amor e compaixão.
Experimentei reações opostas, sentimentos totalmente ambíguos e chorei.
Chorei pela tia que partia.
Chorei pela tia que reencontrara sua menina amada.
Chorei por Laura.
Chorei por minha mãe, que certamente previra este momento e dele participara.
Chorei pela possibilidade que a vida oferece e tantas vezes desperdiçamos.
Chorei...mas também pedí perdão e sentí a leveza de ser perdoada.
Os tijolinhos estão em seu lugar, a construção da vida volta a ser admirada, contemplada e abriga corações em flor!!!
O meu profundo agradecimento à Deus pelas lições !

domingo, 4 de janeiro de 2009

- OPOSTOS -

Para o reveillon, minhas duas filhas estiveram em diferentes lugares, cada uma comemorando do seu jeitinho muito peculiar, com total ausência de preocupações e cercadas de gente que as ama.
Fernanda, a mais velha, foi para o sul, a virada seria em Gramado e passeou por toda a região. Lindas fotos, belos lugares e muito frio. Luísa foi comigo pra região dos lagos, divertido momento e muito calor.
Opostos. E isso me lembrou de falar sobre isso. Opostos.
Sempre significa problema. Já viram algo que não seja?
Nem eu.

Viro a cabeça procurando o que me baste como definição, sossego de ideia e não encontro. Abasteço-me a alma em jorros de erros ortográficos e o papel segue em branco. Hora destilo alegrias, hora indigesto paixões. Dia de tempero apimentado, noite de solidão. Malgrado as horas de espera, imploro tempo veloz.
Todas as melhores coisas da minha vida vieram de opostos. As piores tranformaram-se neles. E eu não sei se lamento ou agradeço. Tenho muita dificuldade em me deixar viver por opostos, mas por outro lado a segurança que dá saber que sou diferente, interpõe-se à dor da verdade. Hoje, o que não tenho, não mais me atrai e o que me dou se estabelece na suficiência. Já me dizem que ando "o bastante" demais,isso afeta?? Mas o sonho ainda vive, se isso interessa saber aos que atiram pedras. Opostos se repelem...no meu caso.

E então, a do frio voltou e nós, do calor, pudemos enfim nos abraçar comemorando o início de nova etapa,novos desejos e promessas ambulantes. Mas sempre olhando acima do horizonte! E passeando os pensamentos... por opostos.

Beijos, leiam-me!!!


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Mais um ano se vai e eu ausente do meu blog.
Sem problemas.
Ando introspectiva demais, saber ou não da existência de certas coisas, prover algumas mudanças, abraçar vertentes já desativadas, me deixou assim. Fazer o que. Aliás, façamos o seguinte, eu e vcs que me acompanham e deliram comigo,rsrsrs: Deixemos que 2009 venha, rebata em nossas casas, adentre nossos corpos e mentes, sintamos dele todo sabor de esperança e fadiga pelas andanças até aqui. Copiemos sua juventude, disposição e prazer em festejar. Um trato de reis e rainhas,sem dúvida, mas também de muita alegria . Tranquemos à sete chaves o ano ingrato que se foi, que nos deixa apenas a memória e nem sequer apagou a luz. Assim, brindemos logo com as mais belas taças e o mais saboroso champagne!! Deem cá um abraço e rodopios de felicidade, podem até pisar nos meus pés,mas levantem-me se eu não suportar a dor!!!

Me deem mais uma chance, aguardem os meus textos com carinho e um sorrisão que só vcs sabem me dar.

FELIZ 2009 PRA TODOS, PRA GENTE, PRO MUNDO!
Beijos com amor,
Christal.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

HSE - E800 - L9 - Capítulo 6


No domingo, dia cinco, Lulu recebia apenas um "caldo" para beber e chá. Recusava os dois. Aceitava apenas água-de-côco e meu coração de mãe batia lento de tristeza por vê-la pedir pra comer algo feito por mim. Crianças são capazes de nos comover até a alma e mesmo em momentos nos quais se faz necessário não nos comovermos tanto, afinal, era tudo feito de maneira séria e visando o transcorrer tranquilo de uma cirurgia deste porte.


Nesta noite, dormí mal e logo pela manhã bem cedinho troquei a roupinha dela de hospital, coloquei meias em seus pés ( nem me perguntem por que isto ), fiz asseio em seu rosto, ajeitei-lhe os cabelos e ficamos aguardando.

O pai e a irmã chegaram cedo também para acompanhar este dia conosco, alí no hospital. Abracei minha filha mais velha. Nossa, esquecí-me de que ela também precisava de mim, embora de maneira diferente e sentí-me aliviada de vê-la conosco, saber que estava bem e sentí uma saudade enorme de estarmos todos em casa. Mas aquilo tudo passaria logo, não duvidava disso.


Mais ou menos às nove e meia, o maqueiro do centro cirúrgico chegou pra buscar Luísa. O pai havia saído e não retornara. Juntas, eu, ela e Nanda, nos demos as mãos e proferí outra oração; estava difícil segurar as lágrimas. Luísa não tinha esta preocupação, chorava muito, sentia medo. Fui até a porta do CC com ela, me mantive atrás do rapaz que a levava,pois não queria que me visse chorar. Ele mesmo acenara para não fazer isto e após dar um beijo carinhoso em minha filha, descí e fui encontrar-me com a mais velha e o pai.


Era muito forte a emoção e os sentimentos se misturavam entre medo, otimismo, dúvidas e ansiedade. Ficamos sentados do lado de fora do CIPE , conversamos com uma mãe,cujo bebê também seguira para uma operação. Aquela era uma situação destas em que mal se sabe o que falar que não seja sobre nossos filhos, seu nascimento, dores, alegrias. De certo não havia outro assunto que nos interessasse naquele instante. Para nós, talvez fosse o modo mais seguro e eficaz de não nos afastarmos muito deles. Nesta hora vale ser piegas, acreditem. Todos os demais argumentos não seriam suficientes para nos acalmar senão estes. Então, as horas fluíram. Não demorou e o bebê dela chegou, como eu havia previsto, no centro de uma maca que parecia gigante pela pequenez da criança. Foi lindo e engraçado ver aquele "montinho de lençol" chegando, aos berros de fome. Já tinha visto esta cena antes e deu pra achar graça agora.


A cirurgia de minha filha durou umas quatro horas e quarenta. O cirurgião ligou e mandou-me chamar avisando que mais algumas horinhas e poderíamos ver Luísa no CETIPE, para onde ela seguiria. Disse que tudo estava bem, foi tudo como previsto e que ela ficaria lá para uma maior vigilância por se tratar de uma cirurgia grande. Explicou alguma coisa que não ouví direito, pois só chorava, fiquei mais surda ainda e cega.
Quando Nanda e o pai retornaram do almoço, falei que havia terminado e que o Dr. Samuel viria falar conosco antes de descermos ao terceiro andar.
Ele não demorou e nos falou sobre o que fizeram e o que encontraram. Havia mudado a idéia inicial de como seria a incisão, explicou-nos o porquê e que tinha sido retirada a parte superior do rim esquerdo dela, estava necrosado. Esta palavra soou feito uma pedra de uma tonelada em minha cabeça. Havia uma infecção que tomara o rim de minha filha, não tinha outra maneira de agir neste caso,senão a retirada. Apesar dos cuidados devidos, ela necessitara de bolsa de sangue, mas que agora tudo ficaria bem, ela teria vida normal. Perguntas estavam por todo meu corpo,minha mente e coração. Queria que ele respondesse uma via crucis de interrogações que eu tinha, mas percebí-lhe a pressa, a conclusão e tudo que eu desejava era abraçar a minha filhinha naquele momento. Chorei muito consolada pela minha filha mais velha. Poderia estar exagerando,mas aprendí que coração de mãe é uma verdade intrínseca quando berra e ainda restava a resposta da biópsia que viria mais de um mês depois.
Descemos ao terceiro andar e ficamos aguardando a chegada da Luísa .

Antes de descermos, ainda no oitavo andar, o estresse tomava conta de mim, não sabia mais o que fazer, mas algo tinha de ser feito. Respirei do lado de fora, na rampa que dá acesso aos andares, olhei para o mar, a ponte à frente e tentei não focar em nada negativo. Olhei para o céu como deu e fiz uma oração. O calor estava forte, mas uma chuva ensaiava acalmar isso e me dei conta de que nem sabia mais como estava o tempo.


Já à porta do CETIPE, sentada, fui a primeira a avistar a maca que trazia minha Lulu. Levantei e súbito, fiz pararem uns segundos para beijá-la e a enfermeira pediu-me que esperasse,não poderiam ficar alí parados com ela. Entraram, nós atrás, até que nos pediram que sentássemos e aguardássemos pois tinham umas coisas para fazer ainda e logo nos chamariam.

O imenso aparelho de RX foi levado até ela para exames e alí comecei a perceber o quanto era complicado o espaço lá dentro. Num misto de curiosidade e ansiedade, esperamos.


E que espera. Somente faltando pouco para as dezoito horas é que fomos autorizados pela médica de plantão a vermos a nossa pequena. O pai foi primeiro.


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domingo, 2 de novembro de 2008

HSE - E800 - L9 - Capítulo 5

No sábado à noite minha filha começava a ser preparada para a cirurgia. Eu sabia, tinha problemas. O que deveria ter sido feito às vinte horas, demorou uma hora e quinze para ter início; ela relutou, não permitia e usar de força naquele momento era algo simplesmente desumano. Tentei de toda forma convencê-la, até rí em dado instante,pois a maneira dela se expressar ficou cômica a partir dalí. A enfermeira argumentava,tinha ordens a cumprir e um horário pré-determinado. Tudo era cronometrado, mas Luísa destruía toda e qualquer hierarquia naquela noite. E avisava, não estava disposta a colaborar. Isso foi cansativo.
Acabei impondo minha presença e voz ativa; eu e mais duas enfermeiras a seguramos, embora sem força suficiente para machucá-la e acabou cedendo. Foi de fato estressante. E era só o começo.
Quando Vera subia para o descanso, algumas vezes conversávamos por meia horinha e ela falava de uma menina que estava no CETIPE ao lado da filha dela. Tratava-se de Carolina, ou Carol, uma menina de treze anos que lutava contra a leucemia e precisava vencer os obstáculos que se interpunham próximo à data de um transplante. Vera contava seus diálogos com os pais da menina que "moravam" lá num daqueles quarto-boxes, enquanto a filha permanecia ligada à máquinas no interior do CETIPE.
Mariane, a garotinha da enfermaria que estávamos, teve alta sábado de tarde e se foi alegre para casa. A mãe torcia para não precisar voltar mais. E nós, as que ficamos, concordávamos com ela.
No domingo pela manhã, Luísa já não se alimentava mais, estava no soro, sondada e triste.
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sábado, 1 de novembro de 2008

HSE - E800 - L9 - Capítulo 4

Após a cirurgia ( que pareceu interminável para a mãe dela ), Júlia foi para o CETIPE (não me lembro se tinha o "e" no final ), o centro de terapia intensiva pediátrico. Fica no terceiro andar e merece destaque aqui. Verão porque. Vera podia ver a filha e ficar com ela por algumas horas, mas tinha que sair para dormir ou quando o pessoal de lá fazia alguns procedimentos necessários na menina ou em outros pacientes que alí se encontravam. O espaço era bastante restrito visto haver muitas máquinas, alguns leitos, divisórias e pessoal circulando o tempo todo. A simples entrada de um aparelho de rx gerava transtorno e requeria adaptações no espaço. Era uma rotina sem fim e nesta hora, quem acompanhava tinha que ficar do lado de fora da porta de vidro sentado num banco macio à espera de novo chamado para entrar. Quando chegavam alí também aguardavam serem chamados e os pais eram as únicas pessoas autorizadas a entrarem . Lavávamos as mãos e braços e vestíamos um jalecão apropriado para o local.
CETIPE ( com ou sem "e" )
Localizado no terceiro andar do hospital, o CETIPE era reservado para crianças em estado de alto risco e, ou, casos crônicos e graves que requeriam maior vigilâcia. Crianças de zero a dezenove anos, diga-se como certo aqui. Na entrada, duas guardas do próprio hospital restringiam a passagem"filtrando" quem entrava e o que faria alí. Do lado de dentro,caminhava-se até um hall e dobrava-se à direita indo até o final do corredor onde estava a porta de vidro. Se olhássemos para o lado oposto a visão parecia infinita. Extenso corredor para ambos os lados. No caminho, via-se "boxes-quartos" onde ficavam pacientes crônicos ou em tratamento e seus acompanhantes, em sua maioria mães. Não vou me alongar muito nesta descrição, até porque evitei instintivamente não me ocupar tanto do campo visual neste local nem expôr a minha curiosidade a tanto. Mas deu pra ao menos me inteirar de que eram casos realmente muito graves e com os quais eu não gostaria de lidar jamais.
No final do dia de sexta-feira, Vera subiu e nos falou de sua menina, que estava bem e que ela iria descansar e estar bem na manhã seguinte para voltar ao lado da filha. Ótima decisão, o melhor era mesmo dormir um pouco, comer algo no dia seguinte pela manhã e encarar corajosamente a situação. Aliás, mais tarde eu perceberia o quanto aquela mulher era forte e inteligente. Simples, humilde, oito filhos e uma verdade incontestável.
No sábado à noite, começariam os procedimentos pré-operatórios de Luísa.
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HSE - E800 - L9 -Capítulo 3

Logo no primeiro dia, curiosa e me sentindo a última bolacha do pacote, fui aos poucos me ajeitando em conversas aqui e acolá, andava pelo pequeno espaço do lado de fora das enfermarias e tomava ciência de alguns fatos e procedimentos dalí. A pequena Mariane seria operada de um problema na garganta que não compreendí bem a causa. Já havia passado pela primeira cirurgia, mas algo voltara a acontecer e lá estava ela, pronta para a segunda tentativa. Eu e a mãe dela conversamos alguns momentos. Vera, mãe de Júlia chegou ao anoitecer e já encontrou a filha com os procedimentos pré-cirúrgicos em andamento. A menina sofrera lavagem intestinal e sondagem estomacal. Tudo para "limpar" totalmente o intestino que,segundo o Dr. Samuel ( o "Samuca", segundo Lulu ), era absolutamente necessário.
Luísa estremeceu ao saber que passaria pelo mesmo e começou a armar uma rejeição seguida de choro constante e medo,obviamente. Todos nós sentimos medo diante do desconhecido e este aumenta qdo o assistimos em outrem. Eu sabia que ela daria trabalho,antevia o problema e tentava não passar-lhe isto, tranquilizava-a dizendo que "cada caso era diferente"; a resposta dela vinha em forma de mais choro e impaciência. Ver a outra menina,de idade igual, passar por tudo aquilo, trouxe pra Luísa a sensação de que não deveria estar alí. Então, repetia baixinho e em lágrimas para mim: "Mãe, me "desinterna",por favor, chame o papai e vamos embora daqui, eu fiz a "cirurgia espiritual",estou bem,não preciso operar agora aqui,neste hospital, você disse que eu ficaria bem." É, eu disse de fato e ela estava bem. O que eu não sabia era como explicar-lhe que a "cirurgia espiritual" havia retirado dela a possível CAUSA do problema; o EFEITO prosseguia e fazia-se míster a sua retirada. Com toda certeza, nada retornaria, mas ainda restava o que ser feito e tinha de ser alí. Muitas horas eu me confundia em pensamentos e quanto mais pensava,mais ardia em dúvidas e propostas. E se? Era o que mais me vinha à mente. Foram vários "e se?". Não podia transparecer para Luísa,então começamos a brincar, desenhar, fazer-de-conta.
Júlia foi operada na sexta-feira, dia três. Ela tinha um tumor no intestino já até visível à olho nu, que coisa. Antes dela seguir para o centro cirúrgico, reuní as meninas e mães numa oração poderosa; demos as mãos e eu proferí a oração. Foi de arrepiar!!! Mariane foi em seguida.
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